segunda-feira, 21 de julho de 2014

Skyclad é Pesado sim!

eu, Martin Walkyier e minha irmã no Roça n Roll 2013
Como tantas outras bandas, conheci o Skyclad com minha irmã mais velha. Acho que gostei da banda no começo por conta da idéia de liberdade que ela me transmitia. Afinal, sempre me pareceu muita coragem colocar violino em um álbum de estréia. Não que o uso do violino (e posteriormente outros instrumentos não tradicionais no metal) seria "menos" inesperado e chocante se fosse num álbum depois de várias anos de carreira, mas no primeiro me parece algo muito "a bola é minha e eu vou jogar o jogo que eu quiser".

Lembro do Frank Zappa falando numa entrevista  que quando teve que começar a acatar algumas exigências das gravadoras sua música ficou ruim. Ele disse que música para ser boa, você tem que colocar o que você sente e não o que alguém disse para você ou o que os outros vão gostar. Quando penso no Skyclad, também me lembro do Theodor Adorno em Palestra sobre Lírica e Sociedade:

"Não que aquilo que o poema lírico exprime tenha de ser imediatamente aquilo que todos vivenciam. Sua universalidade não é uma volonté de tous, não é a da mera comunicação daquilo que os outros simplesmente não são capazes de comunicar. Ao contrário, o mergulho no individuado eleva o poema lírico ao universal por tornar manifesto algo de não distorcido, de não captado, de ainda não subsumido(....) A composição lírica tem esperança de extrair, da mais irrestrita individuação o universal."

É, eu sei que esse troço é complicado de entender. Lembro que li esse texto umas muitas vezes e só entendi melhor quando tive aula sobre ele. Mas, o lance é que em uma interpretação tosca e mano (como só eu sei fazer kkkk) o tio Adorno tá dizendo algo como "se você quiser falar de questões universais, você vai acabar não falando e não falando delas, você fala". Certo, certo, sei que isso ainda parece confuso e é mesmo. Mas, eu tenho que aproveitar para alguma coisa o que aprendi na faculdade! ahauhaua Afinal, trabalhando com TI, eu nunca vou usar o Adorno.

Machadão - aparição relâmpago nesse post


 Zoeira! Li um texto muito bacana do Roger Bastide que acho que pode me ajudar a explicar melhor o que o Adorno disse e o que eu to querendo dizer com essa citação sem fim. Em "Machado de Assis, paisagista" Bastide defende que havia sim referências à natureza brasileira na obra do autor..Ele disse que Machado "incorpora a paisagem brasileira “à filigrana da narrativa” tornando-a “elemento funcional da composição literária”. Um bom exemplo seriam os tais "olhos de ressaca" de Capitu.

Martin Walkyer usa vocabulário complexo, alguns termos arcaicos, faz muitos "jogos"com as palavras e aborda temas políticos, fatos históricos e problemas sociais atuais. Quando comecei a ouvir Skyclad eu devia ter uns 15 anos e ainda estava começando a estudar inglês, portanto, não conseguia entender as letras deles. Além disso, eu ainda não tinha tanta bagagem histórica para sacar as referências. Alguns anos depois de muito estudar inglês consegui começar a entender e aí minha admiração pela banda cresceu. Com o cursinho e a faculdade e etc, eu só fui gostando mais e mais da banda. Aliás, quase sempre que escuto alguma música realmente prestando atenção, descubro algo novo.

Acho que para quem não conhece a banda ou sempre achou "alegre demais", vai sacar o que to querendo dizer se parar para ler  Spinning Jenny.
Martin Walkyier

Spinning Jenny é uma máquina de fiar que foi inventada no século 18. Ela simplesmente revolucionou a maneira de produção de artigos têxteis! A letra é em primeira pessoa e o eu-lírico dessa letra é um tecelão que está assustado e com medo. Ele fala sobre como o modo de vida vai mudar e faz belíssimas metáforas sobre as longas jornadas de trabalhos nas fábricas.
Traduzi dois versos que gosto muito e que dão uma excelente idéia de como as letras são complexas.

Her sweetmeats are the souls of men - "Seus doces são as almas dos homens - ela vai comer até explodir"
 

A siren song summons all men to their doom.  - "A canção da sirene convoca todos os homens para a destruição"

No primeiro verso o uso do vocábulo "sweetmeats" demonstra uma coerência com o eu-lírico escolhido por Martin. Afinal, se a pessoa que é a voz do poema está no século 16, não faz sentido algum usar uma gíria do século 21 por exemplo. Pode parecer um detalhe idiota, mas a escolha dessa palavra demonstra uma preocupação com a verossimilhança.

"Que diabos é isso?" você que não é de Letras deve estar pensando, certo? Pois bem, eu fui colocando links que explicam as coisas no texto, mas isso é algo que vale a pena esclarecer no próprio texto. Não pretendo fazer uma aula sobre o assunto, até porque eu nem tenho cacife para tanto. A grosso modo, verossimilhança é o que torna um texto coerente e acreditável. Se a presença dela faz a gente "aceitar" uma narrativa, a falta dela faz justamente o oposto, a gente lê (ou vê uma cena no filme) e pensa "Até parece!". Imaginem que víssemos uma novela que se passa no século 15 no Brasil e víssemos pessoas andando de calça jeans, aí estaria rolando um caso sério de falta da nossa nova amiga verossimilhança. Ao passo que, se essa novela fosse a respeito de um jovem que viaja no tempo, a verossimilhança estaria batendo cartão no rolê.

Sorry Chaplin, not that modern :P
Já o segundo verso que citei  acima, é uma metáfora para as sirenes das fábricas anunciando o início da jornada de trabalho. O que gosto nesse trecho é que passa a sensação de que estão indo para um sacrifício ou mesmo para o inferno. E não é exagero fazer uma analogia como essa, uma vez que as condições de trabalho nas fábricas de tecido era absurdamente longa ( mais de 12 horas tranquilamente), as condições de trabalho eram péssimas (pela falta de equipamentos de segurança muitas pessoas se machucavam) e claro que todos ganhavam pouco.

Muita gente que conheço me dizia que não ouvia Skyclad porque era "alegre demais". Sei que com o passar dos anos o violino foi cada vez ganhando mais destaque nas músicas e que o peso no som fui "diminuindo". Mas, sério mesmo que dá para dizer que a banda é alegre demais depois de ler letras como "Inequality Street"?  Como???? Essa letra fala das injustiças sociais, de como alguns não tem o que comer, enquanto outros têm sobrando. Além disso, há um questionamento claro da igualdade pregada pela nossa sociedade, da mentira em que todos somos levados a acreditar. Segue um trecho que dá uma "visão geral" da pegada da letra.

Dois homens comuns fazem suas refeições regulares
mas o destino espera em sua mesa.
Um é servido mingau enquanto os outros mastiga comida de cachorro

(mas ambos são alimentados com colheres cheias de mentiras, mentiras desde o berço).

 Roberto Muggiati em  Rock - O grito e o mito diz: "O rock’n’roll, afinal, surgiu na América como um movimento da contracultura, visto que suas primeiras manifestações eram contrárias aos valores até então veiculados". Tendo em mente que a essência do rock é ir contra a ordem e ao que está estabelecido, não poderíamos interpretar o aumento do uso de violinos e a perda de peso no instrumental do Skyclad como uma atitude muito coerente? Esse movimento se propôs a questionar o que está dado e abalar as estruturas e foi exatamente isso que o Skyclad fez ao ir transformando sua sonoridade. Trouxe elementos para o Heavy Metal que não era usados e mostrou que é possível sim criar músicas maravilhosas, mesmo que sem tanto peso.

Me questiono muitas vezes se essa dificuldade de "aceitação" / preconceito com o Skyclad não se deve ao fato de Martin Walkyier ter sido anteriormente vocalista da banda SENSACIONAL de thrash Sabbat. Talvez as pessoas tenham ficado frustradas, pois achavam que ele continuaria seguindo na mesma linha. Outros dias, fico refletindo se o preconceito com a banda é coisa de brasileiro. Todos os vídeos que vi deles tocando no Wacken, o povo tava se matando no show.....


Pode ser um pouco de viagem minha, mas sempre penso que o fato de todas as pessoas que tocaram violino no Skyclad serem mulheres parece muita coincidência! Será que na Inglaterra violino é considerado um instrumento afeminado e nenhum cara toca? ehehehe Brincadeiras a parte, acho que isso também tem um caráter importante. Nenhuma das violinistas foi usada enquanto mulher para divulgar a banda. Nunca colocaram-nas em posições de destaque em fotos/vídeos, nem usando roupas sexy ou qualquer coisa desse tipo. Pretendo um dia escrever um post a respeito do uso da imagem da mulher para atrair público e conquistar espaço no nosso meio, acho que simplesmente criticar isso, sem tentar pensar a respeito uma idiotice enorme. Mas, penso que um elemento feminino tocando exatamente o instrumento que causa tanta polêmica, mas que também deu a identidade para a banda e que acabou criando um novo segmento dentro do metal algo muito significativo.

Tietando o Martin em 2007
Já tive a oportunidade de conversar com o Martin mais de uma vez, mas não perguntei a respeito de como surgiu a idéia de usar violino nas músicas e nem se foi proposital ser sempre uma mulher tocando esse instrumento. No entanto, retomando o que citei lá em cima do texto do Adorno e de acordo com o que eu li no site oficial do Skyclad, essas coisas não foram pensadas e planejadas, elas aconteceram. Penso que essa casualidade torna essas características ainda mais importantes.




 Bem, talvez alguém esteja se questionando porque não mencionei nada da banda pós saída do Martin. A verdade é que eu não gostei de como a banda ficou e o que me fez me apaixonar foram as letras e ninguém escreve letras como esse cara! Como disse o Eric Piccelli "Martin Walkyier é o maior poeta do metal".

O rock é muito mais do que um tipo de música: ele se tornou uma maneira de ser, uma ótica da realidade, uma forma de comportamento. O rock ´é´ e ´se define´ pelo seu público. Que, por não ser uniforme, por variar individual e coletivamente, exige do rock a mesma polimorfia (...)Mais polimorfo ainda porque seu mercado básico, o jovem, é dominado pelo sentimento da busca que dificulta o alcance ao porto da definição ( e da estagnação...) - Paulo Chacon


quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Super Peso Brasil + retomada das atividades

Meu intuito ao escrever esse post não era de fazer uma resenha sobre o evento. A princípio eu queria apenas expressar o quanto esse festival foi maravilhoso e usá-lo como desculpa para reativar esse blog, mas quando me dei conta, eu já estava fazendo uma espécie de reflexão sobre a cena.

Inicialmente pensei em escrever um texto comparativo entre o Super Peso Brasil e um show da banda argentina Horcas que tive a enorme felicidade de comparecer, no entanto, conforme as linhas foram surgindo, percebi que não seria necessário recorrer a nossos hermanos como exemplo de atitude. (Por favor não me venham com aquela intriga Brasil X Argentina! Não quero entrar nessas questões hoje e talvez nunca queira, mas a verdade é que precisamos reconhecer que em termos de apoio e reconhecimento de bandas locais, eles detonam a gente fácil!) Felizmente, a atitude do público, dos produtores e das bandas no Super Peso foi muito diferente daquilo que estamos acostumados e por isso conseguirei dizer tantas coisas que estão há tempos engasgadas somente usando o produto tupiniquim como matéria. 


Super Peso Brasil, mais que um evento, uma lição!

(todas as fotografias são do amigo Rogério Seiji Kubometal - outras fotos tiradas por ele desse evento e de vários outros eventos em https://www.facebook.com/KUBOMETALFOTOGRAFIA


No último final de semana aconteceu em São Paulo o Super Peso Brasil, evento que reuniu cinco bandas pioneiras do Metal Brasileiro: Metalmorphose, Centurias, Taurus, Salário Mínimo e Stress.

Apesar de todo o forte trabalho de divulgação da equipe de produção e dos grandes nomes que se apresentariam, admito que até chegar ao Carioca Club e ver que a casa estava lotada, me questionei se esse show ia "virar". 


Sim, esse questionamento me ocorreu, afinal quantas e quantas vezes shows de boas bandas brasileiras não são um fiasco? Não que eu ache que isso seja normal ou que acredite que isso tenha que ser assim. Acredito que nós deveríamos nos dar ao trabalho de conhecer as bandas locais, de prestiagiá-las adquirindo material e comparecendo às suas apresentações, mas quem tem um mínimo de contato com o underground sabe que não é bem assim que as coisas funcionam. 


Escrevo com orgulho que o público compareceu em PESO e participou! As pessoas cantaram, bateram palmas e cabeças e alguns mais audaciosos até resolveram dar mosh! Não posso deixar de comentar que vários membros de bandas que não se apresentaram estavam presentes. Vi integrantes do Torture Squad, Selvageria, Panzer, Nervosa, Sakrah, Anthares, Minotauro, Skinlepsy e quero acreditar que outros estavam ali e que não vi ou que vi, mas que não conheço a banda em que tocam.

A presença de membros de bandas que não faziam parte do cast foi marcante para mim, pois me remeteu a um tópico delicado e polêmico que sempre me ocorre: Integrantes de bandas que enchem a boca para reclamar da falta de apoio do público, mas que não comparecem a eventos que eles não vão tocar. Antes de reclamar que seu último show estava vazio, acho que esses caras podiam se perguntar: "A quantos shows de bandas locais eu fui ultimamente?"

É preciso também ressaltar o excelente trabalho da produção, pois não presenciamos os habituais atrasos e longas esperas entre uma banda e outra. O som estava muito bom e foi possível notar que as bandas puderam contar com o apoio de roadies durante toda a noite. Depois de uma divulgação tão intensa, era de se esperar que o evento seria bem feito e não me decepcionei! A iniciativa de fazer a promoção de compre uma lata de cerveja e leve outra também foi muito bem pensada. Esse tipo de iniciativa que contribui para que o público compareça. Outros fatores positivos foram a escolha de um local de fácil acesso e o horário de término, pois todos puderam ir embora usando o transporte público! 

Público presente e boa produção não seriam suficientes para uma noite tão bacana quanto essa, as bandas fizeram muito bem o seu papel. Eu vi shows de verdade e não apenas caras tocando seus instrumentos. Você deve estar pensando o que eu quero dizer com isso. Bem, eu entendo show não como caras executando músicas, mas sim como caras performando e foi isso que pude presenciar no Super Peso.

Não pretendo comentar cada um dos shows, mas gostaria de destacar os covers: Metalmorphose tocou Satã Clama Metal do Azul Limão e o Salário Mínimo tocou Salém do Harppia. As escolhas das bandas a serem homenageadas e as músicas foram impecáveis. Durante a execução de Salém o Salário contou com a participação do Jack Santigo, que estava tão empolgado que até fez "acrobacia". 

Esse festival  - que parecia mais uma grande festa entre amigos - mostrou que é possível ver eventos só com bandas brasileiras lotados, que há produtores que trabalhar com seriedade e que se você tem banda, não é porque sua banda não vai tocar que você não pode estar lá.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

E não é que eu ainda sei escrever resenha de show? (MX + Arch Enemy)


Pensei que nem soubesse mais como escrever resenha de show, mas para atender ao pedido de minha amiga Nina Stillo descobri que ainda sei sim. Essa moça queria divulgar uma resenha a respeito do show do MX + Arch Enemy e pediu para que eu colaborasse com o texto. Pois bem, abaixo está o nosso texto a 4 mãos e as fotos são de outro companheiro Metal Friend, Rogerio Seiji Kubometal. 


Nina, obrigada pelo convite! Adorei!
Rogerio, como sempre registrando tudo e muito bem!








MX + Arch Enemy - 25/11/12 - Carioca Club - São Paulo/SP 
por Nina Stillo e Linda Mulero / fotos: Rogerio Seiji Kubometal

No último domingo (25/11) o Carioca Club tremeu. A banda MX fez seu primeiro show na capital paulista após a memorável apresentação que marcou seu retorno em Amparo/SP no Executer Fest. A garotada estava tímida enquanto o MX tocava a primeira música, mas se mostrou muito receptiva. Observamos com muita alegria que a garotada foi sendo contagiada pela empolgação dos fãs das antigas que não pararam de agitar um minuto e pela performance da banda, que subiu ao palco cheia de vontade de tocar. Executaram sons dos seus álbuns Headthrashers Live, Simoniacal, Mental Slavery, Again e Last File e fecharam o show com Angel of Death do Slayer. Depois de vermos nova e velha geração de headbangers curtindo o show com a mesma intensidade, tivemos a certeza de que há a possibilidade de resgatarmos excelentes bandas dos anos 80, sem saudosismo ou cheiro de naftalina. Sangue novo ao velho metal! 

Com o público devidamente aquecido pelo MX, Angela Gossow subiu ao palco com o Arch Enemy. Essa mulher tem a seu favor seu lindo sorriso e sua poderosa voz, mas sua performance demonstra que ela não depende somente da sorte. Um dos ápices do show foi quando ela ficou agitando a bandeira brasileira em um mastro pelo palco. O fato de ela ter ido buscar a bandeira no backstage, ao invés de ter recebido por algum fã que a jogou no palco, demonstra que Angela quer e sabe como cativar o público. 
Depois dessa noite literalmente agitada, saímos todos do Carioca Club entendendo melhor a “ascensão” do Arch Enemy depois da entrada de Angela Gossow e com a certeza de que o MX voltou com força total para alegria de seus fãs das antigas e que essa gurizada certamente será conquistada pelos, como eles mesmos dizem, “veinhos”. “MX is back!”

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Manifesto Guarani-Kaiowá

Diante dos recentes acontecimentos envolvendo os Guarani-Kaiowá do Mato Grosso do Sul, a Marina Takahashi teve a grande idéia de regravar Kaiowás do Sepultura
Tive a honra de ser convidada para escrever o manifesto que acompanha o vídeo.
Confiram, pensem, opinem e divulguem!





Música: Kaiowas - Sepultura

Violão: Attilio Negri
Violão: Marina Takahashi
Percussão: Pitchu Ferraz


Texto do Manifesto: Linda Mulero

Manifesto

Em outubro de 2012 a Justiça Federal de Navirai/MS tomou uma decisão desfavorável aos membros da comunidade Guarani-Kaiowá que ocupam um território as margens do rio Hovy. O grupo escreveu uma carta em resposta a essa decisão que teve uma repercussão polêmica. Eles solicitam ao Governo e Justiça Federal que ao invés de executar a suposta ordem de despejo, decrete morte coletiva e enterrem-nos onde estão.

A mídia está divulgando que ocorrerá um suicídio coletivo, no entanto, após leituras exaustivas da carta não é possível encontrar qualquer menção a suicídio. O que está dito é que não sairão do território e que acreditam que isso resultará em mortes. Ainda que a mídia não tivesse feito uma abordagem equivocada, a decisão dos Guarani-Kaiowá e seus argumentos seriam recebidos de forma controversa, uma vez que "O significado de territorialidade para as sociedades indígenas não é o mesmo que para as populações nacionais que as rodeiam." "Para as sociedades indígenas a terra é muito mais do que simples meio de subsistência. Ela representa o suporte da vida social e está diretamente ligada ao sistema de crenças e conhecimento. Não é apenas um recurso natural mas -- e tão importante quanto este -- um recurso sociocultural." (Ramos, Alcida Rita - Sociedades Indígenas)

Em um primeiro momento parecia não haver dúvida de que a decisão da Justiça Federal de Navirai/MS tratava-se de ordem de reintegração de posse, isto é o grupo Guarani-Kaiowá teria de desocupar a área. Após alguns dias, a Justiça do Mato Grosso do Sul alegou que a ordem é de manutenção de posse, portanto, apesar de o fazendeiro ter a posse legal da terra, o grupo não precisaria sair da área até que fosse provado a quem o território pertence efetivamente.

A situação desse grupo Guarani-Kaiowá nos parece uma representação da situação dos indígenas no Brasil: obscura, incerta e preocupante. Independente de o grupo Guarani-Kaiowá estar certo ou errado e da Justica Federal de Navaraí/MS ter tomado uma decisão justa ou injusta, não há como negar a importância desse episódio. Embora ainda não saibamos qual será o desfecho dessa questão, ela foi de suma importância, pois conseguiu propor uma reflexão -- ainda que superficial -- a respeito dos problemas enfrentados pelos índios do Brasil.

terça-feira, 16 de outubro de 2012

De onde vim - Literatura

A leitura e a escrita me interessam desde que fui alfabetizada. Pensando bem, acho que o universo dos livros, das estórias e etc me conquistou muito antes disso... Lembro-me de ganhar livros apenas com figuras (mas com narrativas) antes de aprender a ler e de ficar totalmente encantada. Foi quando ganhei esses livros que descobri que o mundo podia estar ao alcance dos meus olhos e das minhas mãos.



Infelizmente a escola em que estudei - assim como a maior parte das escolas públicas de nosso país - sempre negligenciou a literatura e eu só fui descobrir efetivamente essa coisa tão maravilhosa quando fui fazer cursinho aos 20 anos de idade! Antes disso eu ia lendo o que “caia” na minha mão, sem grandes reflexões ou noção de que havia coisa muito melhor por aí. Sempre que penso nisso me dói um pouco o coração, afinal foram tantos anos desperdiçados!

Apesar de todo esse contexto desfavorável e desmotivador, eu decidi estudar Letras e foi quando ingressei na universidade que a literatura “fincou raízes” na minha vida. Não posso esquecer de mencionar que esse processo foi árduo, afinal, enquanto a maior parte dos meus colegas de classe conheciam os grandes autores de trás para frente, eu conhecia apenas eles “de nome”.


Pensando sobre minha trajetória até a Literatura, vejo o quanto é irônico eu ter estudado na FFLCH/USP. O curso é muito mais voltado para Literatura do que para qualquer outra coisa e isso me lembrou de “O Lutador” do Carlos Drummond. O eu-lírico do poema fala do processo de construção poética, da dificuldade que ele encara diante das palavras. Penso que isso de certa forma pode representar a luta que eu travei todos os dias durante os 6 anos de faculdade (é isso mesmo! eu levei 6 anos para sair da faculdade! Qq hora eu falo sobre essa outra luta) com a Literatura.




O Lutador - Carlos Drummond de Andrade

Lutar com palavras
é a luta mais vã.
Entanto lutamos
mal rompe a manhã.
São muitas, eu pouco.
Algumas, tão fortes
como o javali.
Não me julgo louco.
Se o fosse, teria
poder de encantá-las.
Mas lúcido e frio,
apareço e tento
apanhar algumas
para meu sustento
num dia de vida.
Deixam-se enlaçar,
tontas à carícia
e súbito fogem
e não há ameaça
e nem 3 há sevícia
que as traga de novo
ao centro da praça.

Insisto, solerte.
Busco persuadi-las.
Ser-lhes-ei escravo
de rara humildade.
Guardarei sigilo
de nosso comércio.
Na voz, nenhum travo
de zanga ou desgosto.
Sem me ouvir deslizam,
perpassam levíssimas
e viram-me o rosto.
Lutar com palavras
parece sem fruto.
Não têm carne e sangue…
Entretanto, luto.

Palavra, palavra
(digo exasperado),
se me desafias,
aceito o combate.
Quisera possuir-te
neste descampado,
sem roteiro de unha
ou marca de dente
nessa pele clara.
Preferes o amor
de uma posse impura
e que venha o gozo
da maior tortura.

Luto corpo a corpo,
luto todo o tempo,
sem maior proveito
que o da caça ao vento.
Não encontro vestes,
não seguro formas,
é fluido inimigo
que me dobra os músculos
e ri-se das normas
da boa peleja.

Iludo-me às vezes,
pressinto que a entrega
se consumará.
Já vejo palavras
em coro submisso,
esta me ofertando
seu velho calor,
aquela sua glória
feita de mistério,
outra seu desdém,
outra seu ciúme,
e um sapiente amor
me ensina a fruir
de cada palavra
a essência captada,
o sutil queixume.
Mas ai! é o instante
de entreabrir os olhos:
entre beijo e boca,
tudo se evapora.

O ciclo do dia
ora se consuma
e o inútil duelo
jamais se resolve.
O teu rosto belo,
ó palavra, esplende
na curva da noite
que toda me envolve.
Tamanha paixão
e nenhum pecúlio.
Cerradas as portas,
a luta prossegue
nas ruas do sono.

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

De onde vim - Metal

Acredito que antes de qualquer coisa, devo mandar um aviso importantíssimo aos navegantes: Se você não gosta ou não tem paciência com longos textos, aborte imediatamente essa missão! Não tenho intenção de conter meus impulsos criativos, portanto os posts provavelmente serão extensos.

O processo de escrita para mim sempre começa muito antes de eu colocar minhas mãos sobre o papel ou em termos atuais, colocar as mãos sobre o teclado. Fiquei um tempo considerável pensando na melhor forma de abrir esse blog, hesitei muito em começar com uma minibiografia e acabei não conseguindo vencer meus velhos hábitos de professora. A necessidade de contextualizar para que o texto seja acessível a todos me venceu, portanto "senta que lá vem história"...

Eu poderia simplesmente dizer que ouço Heavy Metal há muitos anos e sou Bacharel em Letras Português/Inglês pela Universidade de São Paulo, mas será que isso realmente diz algo sobre mim ou será que diz o suficiente? Leiam o que escrevi abaixo e tirem suas próprias conclusões.

Já que eu não sou uma super narradora como Brás Cubas, vou contentar-me em começar essa história pelo começo. O Heavy Metal entrou na minha vida por causa da minha irmã Sumire. (vejam ao lado 1 foto nossa. pois é, apesar de ser caçula sou muito mais alta!) Ela já tinha me dito muitas vezes para pegar suas fitas emprestadas e eu até ouvia as fitas clandestinamente (sabe aquela coisa de briga entre irmãos? Eu fazia 1 super esforço para não dar meu braço a torcer), mas foi só quando fui ao primeiro show de metal é que o que era flerte virou amor e aí não teve mais volta.



Em 98, eu tinha então 14 anos, a Sumire conseguiu me convencer a ir ao Monsters of Rock com ela. Juro que não sou daqueles manés que “vivem” pelo e para o Metal, mas não consigo evitar de pensar que esse foi o dia que mudou o rumo da minha vida. Digo isso, pois alguns dos amigos e amigas mais queridos, todas as minhas paixões, as melhores viagens e as melhores “saídas” foram de alguma forma motivados pelo som. E claro que eu não poderia deixar de dizer que isso acabou me aproximando muito da minha irmã. Desse dia em diante tínhamos algo em comum, isso facilitou a nossa relação (que não era das mais fáceis). Virei seu “chaveirinho” gigante - não dá p chamar alguém de 1.80 só no diminutivo kkk- e ela passou a me carregar para todos os rolês com ela. Com isso eu ganhei a alcunha que me acompanhou por muitos anos e que de vez em quando alguém ainda desenterra: “irmã da Sumire”.

O som em si eu já sabia bem o que era afinal, a Sumire passava horas e horas ouvindo música em casa sem fones de ouvido e monopolizando a TV para assistir vídeos. A epifania veio por causa do ambiente, da vibração, de ver todas aquelas pessoas cantando e curtindo juntas e acho que principalmente pela cumplicidade que eu vi entre tantas pessoas que não se conheciam. Eu que me sentia um “ser estranho” no colégio, vi ali algo de que eu poderia me sentir parte, um horizonte brotou na minha frente. Penso que todos nós precisamos ter a sensação de pertencimento, especialmente quando somos adolescentes e o mundo parece tão hostil. Foi enquanto eu via todos aqueles braços para cima, ouvia todas aquelas palmas e gritos emocionados que percebi que eu nunca mais poderia viver longe daquilo tudo.

Sei que minha percepção da cena foi extremamente romântica, mas aos 14 anos quem é que não olha para o mundo com fantasia? Depois de 14 anos nessa vida de Metal, eu já vi um pouco de tudo e sei que esse definitivamente não é um mar de rosas, até pq isso não seria nada “true” ehehehehe. A questão é que eu optei por ter sempre em mente a sensação de falta de ar ao ouvir o coro dos fãs, o entusiasmo ao ver todas aquelas mãos em sincronia batendo palmas (apesar de que sempre tem alguns manezões sem noção de tempo atrapalhando tudo!), a mágica de ouvir um refrão cantado por milhares de pessoas e a solidariedade que presenciei tantas e tantas vezes entre pessoas que não tinham nada em comum além da preferência musical.

Já faz vários dias que estou pensando em como continuar esse post ou como terminá-lo... estou “empacada”! Depois de muito pensar, repensar e arrancar cabelos, a luz no fim do túnel surgiu! Bandeira, tão querido, como sempre me ensinando!




Lembrei-me de seu lindo poema “Poética” e aí percebi que não há motivo para seguir regras. Esse blog é um meio para que eu possa me expressar e não quero ter que obedecer a nada! Então fecho esse post sobre minha “estréia” no metal com o lindo Poética do Bandeira. Sim, eu sei que isso é no sense, mas e daí?




Poética


Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem-comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente protocolo e manifestações de apreço ao sr. direitor
Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário o cunho vernáculo de um vocábulo
Abaixo os puristas

Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis

Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítico
De todo lirismo que capitula ao que
quer que seja fora de si mesmo.

De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de co-senos secretário do amante exemplar com cem modelos de cartas e as diferentes maneiras de agradar às mulheres, etc.

Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbados
O lirismo difícil e pungente dos bêbados
O lirismo dos clowns de Shakespeare

- Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.