A leitura e a escrita me interessam desde que fui alfabetizada. Pensando bem, acho que o universo dos livros, das estórias e etc me conquistou muito antes disso... Lembro-me de ganhar livros apenas com figuras (mas com narrativas) antes de aprender a ler e de ficar totalmente encantada. Foi quando ganhei esses livros que descobri que o mundo podia estar ao alcance dos meus olhos e das minhas mãos.
Infelizmente a escola em que estudei - assim como a maior parte das escolas públicas de nosso país - sempre negligenciou a literatura e eu só fui descobrir efetivamente essa coisa tão maravilhosa quando fui fazer cursinho aos 20 anos de idade! Antes disso eu ia lendo o que “caia” na minha mão, sem grandes reflexões ou noção de que havia coisa muito melhor por aí. Sempre que penso nisso me dói um pouco o coração, afinal foram tantos anos desperdiçados!
Apesar de todo esse contexto desfavorável e desmotivador, eu decidi estudar Letras e foi quando ingressei na universidade que a literatura “fincou raízes” na minha vida. Não posso esquecer de mencionar que esse processo foi árduo, afinal, enquanto a maior parte dos meus colegas de classe conheciam os grandes autores de trás para frente, eu conhecia apenas eles “de nome”.
Pensando sobre minha trajetória até a Literatura, vejo o quanto é irônico eu ter estudado na FFLCH/USP. O curso é muito mais voltado para Literatura do que para qualquer outra coisa e isso me lembrou de “O Lutador” do Carlos Drummond. O eu-lírico do poema fala do processo de construção poética, da dificuldade que ele encara diante das palavras. Penso que isso de certa forma pode representar a luta que eu travei todos os dias durante os 6 anos de faculdade (é isso mesmo! eu levei 6 anos para sair da faculdade! Qq hora eu falo sobre essa outra luta) com a Literatura.
O Lutador - Carlos Drummond de Andrade
Lutar com palavras
é a luta mais vã.
Entanto lutamos
mal rompe a manhã.
São muitas, eu pouco.
Algumas, tão fortes
como o javali.
Não me julgo louco.
Se o fosse, teria
poder de encantá-las.
Mas lúcido e frio,
apareço e tento
apanhar algumas
para meu sustento
num dia de vida.
Deixam-se enlaçar,
tontas à carícia
e súbito fogem
e não há ameaça
e nem 3 há sevícia
que as traga de novo
ao centro da praça.
Insisto, solerte.
Busco persuadi-las.
Ser-lhes-ei escravo
de rara humildade.
Guardarei sigilo
de nosso comércio.
Na voz, nenhum travo
de zanga ou desgosto.
Sem me ouvir deslizam,
perpassam levíssimas
e viram-me o rosto.
Lutar com palavras
parece sem fruto.
Não têm carne e sangue…
Entretanto, luto.
Palavra, palavra
(digo exasperado),
se me desafias,
aceito o combate.
Quisera possuir-te
neste descampado,
sem roteiro de unha
ou marca de dente
nessa pele clara.
Preferes o amor
de uma posse impura
e que venha o gozo
da maior tortura.
Luto corpo a corpo,
luto todo o tempo,
sem maior proveito
que o da caça ao vento.
Não encontro vestes,
não seguro formas,
é fluido inimigo
que me dobra os músculos
e ri-se das normas
da boa peleja.
Iludo-me às vezes,
pressinto que a entrega
se consumará.
Já vejo palavras
em coro submisso,
esta me ofertando
seu velho calor,
aquela sua glória
feita de mistério,
outra seu desdém,
outra seu ciúme,
e um sapiente amor
me ensina a fruir
de cada palavra
a essência captada,
o sutil queixume.
Mas ai! é o instante
de entreabrir os olhos:
entre beijo e boca,
tudo se evapora.
O ciclo do dia
ora se consuma
e o inútil duelo
jamais se resolve.
O teu rosto belo,
ó palavra, esplende
na curva da noite
que toda me envolve.
Tamanha paixão
e nenhum pecúlio.
Cerradas as portas,
a luta prossegue
nas ruas do sono.


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