segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Tem machismo - e muito - no metal sim! (ou meu mundo caindo...)

Dedico esse texto à Janaina Soares, pois foi a primeira amiga de "rolê" que fiz com a idade mais próxima da minha e que virou uma super parceira na vida. Você sempre foi referência de mulher no metal pra mim. <3 Disse que você ia ser a primeira a ler esse texto, mas eu não aguentei de ansiedade e tive que publicar, desculpe! ahauhauahua


Eu e as figuras importantes da minha formação: tia, mãe e avó
Nasci em uma família de mulheres, portanto sempre tive a idéia de que mulheres são fortes, guerreiras e que temos força para fazer o que quisermos.
A importância da presença feminina na minha vida pesou até para que eu começasse a gostar de Metal. Quem me levou pra esse caminho foi minha irmã mais velha, pois é, IRMÃ! Já escutei a história de muitas amigas sobre como começaram a ouvir som e a maior parte foi por influência de uma figura masculina: irmão, primo, amigo, namorado.


Sumire  (minha irmã) e eu no Carcass 2013
Como já mencionei em posts anteriores, caí no metal ainda bem nova - 14 aninhos pra ser exata - e trouxe comigo minha visão ingênua e esperançosa da  vida. Achava que o mundo "normal" não fazia sentido, bom eu ao menos eu não conseguia entendê-lo, mas pensava que nesse meio eu me sentiria melhor, que veria diferenças sendo aceitas e pessoas em harmonia. É, eu literalmente não percebia que o metal é apenas um microcosmo, isto é, o nosso mundo "menorzinho". Tal qual o mundo, o nosso meio é cheio de problemas, inclusive os mesmos que eu via fora dele e que me incomodavam. O lance é que esse microcosmo tem uma trilha sonora que me agrada e sem a qual eu não sei viver.

Acho que eu esperava um mundo perfeito, tipo mar de rosas...  Esperava um meio sem preconceitos, racismos, sem fobias: homo, trans, gordo, e etc etc. Já recorri ao Roberto Muggiati usando trechos de Rock - O grito e o mito e vou recorrer de novo:

Dario e Bruno - os 2 amigos + queridos do Metal
"O rock’n’roll, afinal, surgiu na América como um movimento da contracultura, visto que suas primeiras manifestações eram contrárias aos valores até então veiculados". Tendo em mente que a essência do rock é ir contra a ordem e ao que está estabelecido, não deveria esse ser um movimento  "livre" de todo esse lixo que já tinha seu lugar lá no "mundão" real? Infelizmente percebo que trouxemos conosco muito do entulho. Recentemente conversando sobre isso com o Dario ele disse: "Diferente de você, eu sempre soube que era uma merda. Mas pelo menos era uma merda que tinha mais a ver comigo".  Quem dera eu tivesse tido essa percepção antes, acho que teria me poupado de muitas decepções.

O machismo foi uma das coisas que mais detestava do "mundão" e que para minha surpresa encontrei no meu microcosmo amado. Eu não o percebi de imediato, foram anos e anos com muitas pequenas coisas, outras nem tão pequenas assim, que me fizeram enxergar que ele está tão presente nesse meio quanto no resto do mundão. Aliás, enquanto escrevo esse texto e reflito sobre a questão, me parece até que aqui a coisa é pior...

As cartas que guardei dessa época
No início eu não me questionava sobre ir a shows e ver tão poucas minas e mal me dava conta de que a maioria delas era "mina de alguém". Acho que o fato de eu estar sempre com a minha irmã logo que comecei a ir pro rolê me fez ignorar esse lance por algum tempo. Talvez a ficha tenha começado a cair quando decidi tentar fazer amigos por correspondência. Colocava anúncios de correspondência e quase 90% das cartas que recebia era de caras e muitos deles já me perguntavam se eu tinha namorado, como era minha aparência e coisas do tipo.

Show do Nevermore 2001 - eu, a única mina da turma :(
Através da correspondência conheci alguns caras bem bacanas e com alguns realmente criei laços de amizade. Quando comecei a ir com eles pra shows e não mais só ir com a minha irmã, percebi que muitas vezes eu era a única mina da galera. Fiz amigas também, mas a maioria não ia pra shows porque os pais achavam que não era seguro. Como a minha mãe já estava  acostumada com a "galera do rock" que frequentava minha casa, ela não se importava e me deixava sair. (Esteja onde estiver mãe, obrigada por ter criado seu filho e filhas com os mesmos direitos, liberdades e obrigações)

Tietando o Roland Grapow na Die Hard em 2002
Quando fiz 18 anos acabei indo trabalhar na Die Hard na Galeria do Rock. Na época eles já tinham uma outra vendedora, coisa rara em lojas de cds. Então a maior parte das mulheres que trabalhava na Galeria era funcionária de loja de roupa, acessório e coisas assim. Lembro da quantidade de caras de espanto que eu via todos os dias quando os clientes entravam na loja e davam de cara com duas minas atrás do balcão. Alguns perguntavam coisas pra uma de nós duas, mas acabavam "confirmando" com um dos donos da loja. O que eu adorava era quando o dono da loja perguntava de volta pra uma de nós! Ahauhuahua

Se há uma coisa que não posso perder a oportunidade de abordar aqui é a forma como os caras nos tratam em shows ou como nos abordam quando estão interessados, que são duas coisas diferentes, mas que me parecem "norteadas" pelo mesmo motivo oculto. Na minha opinião, é através dessa questão - que é a maior falácia ever - que conseguimos iluminar essa questão tão obscura que é
o machismo no metal. O mito de que "cara do metal respeita as minas" é sustentado totalmente por conta dessa relação dos caras conosco em shows ou quando há interesse "amoroso".

Nunca em um evento de metal algum cara tentou me agarrar ou forçou um papo, aliás, nunca ouvi relato desse tipo de nenhuma amiga que frequenta o meio. Infelizmente sei que acontece em outros meios musicais ou outros tipos de "balada" por relatos de amigas e coisas que leio em blogs feministas. (Sim queridxs, eu leio material feminista! Não só leio como eu mesma me identifico e ouso dizer que sou feminista!) Mas, alguém já parou para pensar no porquê disso?

Eu não entendia o "raçocino"...
Por muitos anos eu dizia com orgulho para pessoas de fora do meio que não passávamos por constrangimentos ou assédios em shows, pois éramos respeitadas. Mas, conforme fui estudando mais e mais coisas a respeito das relações sociais, do machismo, da construção de gênero e a porra toda, percebi o que realmente está por trás dessa nossa "segurança".  

A maior parte dos caras não sai passando a mão em mina em show ou "chega junto" sem observar a mina por um tempo. Você deve estar pensando: "Nossa que legal, os caras respeitam as mulheres", certo? ERRADO! Soooo fucking wrong baby! Acredito que há dois motivos básicos para essa conduta, a saber: o risco da mulher ser "de alguém" é altíssimo e eles querem mais minas no rolê pra terem quem pegar.

Geovani, 1 das exceções maravilhosas!
É chocante e revoltante, mas a verdade é que o respeito não é direcionado a nós, mas a outro "macho". Acho que o fato de ser um meio tão "pequeno"  e de todo mundo se conhecer tem ainda mais peso. Afinal, imagina se o fulano da banda X mete a mão nos peitos na mulher do cara da banda Y.

O segundo motivo me deixa ainda mais triste: eles não nos respeitam pois entendem que assim como eles amamos esse estilo de som, porque acham que temos tanto direito quanto eles de estar em um show batendo cabeça, mas porque querem ter uma maior "variedade" de minas à sua disposição.

Pensando tanto na primeira quanto na segunda razão que expus, fica claro que no geral (SEMPRE HÁ EXCEÇÕES!) somos vistas como "objetos", não como "sujeitos".  Não sei se pessoas que não são "piradas" em palavras como eu conseguem dimensionar a diferença hierárquica que essas palavras evocam, mas é brutal. A dessemelhança é imensa e pensei em citar as definições das duas tanto como substantivos masculinos, como os significados em termos gramaticais para ilustrar meu argumento. (Definições retiradas do maravilhoso dicionário on line Caldas Aulete)

(ob.je.to)
sm.
1. Qualquer coisa material
2. Coisa para a qual converge uma ação, emoção ou pensamento (objeto de busca/de desejo/de divergência)
3. Mercadoria, bem de consumo
(...)
6. Gram. O ser, a coisa ou ideia que completa o sentido do verbo transitivo

(su.jei.to)
sm.
(...)
6. Homem, indivíduo
7. Gram. Termo sobre o qual se afirma uma coisa, e com o qual o verbo concorda


Andrea (esposa do Max) eu e o Max
Há "homens exceção" que fazem a diferença, por exemplo, nos idos de 2003 fui convidada para começar a escrever para o finado webzine Sounds of Battle pelo Max. Eu era uma das únicas mulheres no grupo de colaboradores. Sempre contei com o apoio e respeito dele e dos outros "donos" do zine. Uso o termo respeito, pois infelizmente não somos vistas como iguais. Afinal, que mulher que ouve som que nunca ouviu em um show "Você é namorada de quem?" ou "Começou a gostar de som com o seu namorado?". Ainda bem que há caras como o Max e os outros caras do Sounds! Eles deram uma chance pra uma "menina" poder expressar seu apoio e amor pelo metal através de palavras. Lembro do Max sempre elogiar meus textos e olha que na época eu escrevia muito mal ahuahuahuaa. (Valeu Max!)

Penso que vamos aos poucos  e a custo de muita luta ganhando o nosso tão merecido espaço nesse meio tão opressor. Temos a sorte de contar com alguns aliados no lado do inimigo nessa "guerra" que travamos todos os dias para ter direito de simplesmente apreciar um som que amamos. Claro que as coisas já melhoraram muito, mas ainda há muitoooo chão até que esse meio seja de fato igualitário. Gosto de acreditar que de alguma forma estou contribuindo para essa abertura e espero que outras mulheres percebam o quanto é importante continuarmos nos impondo e conquistando mais e mais espaço para as futuras "sisters of metal" que com certeza virão por aí!






sábado, 7 de novembro de 2015

Resenhas no Metal - uma reflexão

Quando imaginei o Headbanger Letrada, pensei em escrever me valendo do que aprendi na faculdade de Letras (técnicas de análise/crítica e muitas outras nerdices humanísticas) para falar de Metal. Pensei que isso satisfaria minha ânsia de escrever e  ao mesmo tempo quis propor uma forma alternativa de falar de som pesado.

Não sei como são escritas resenhas em mídias brasileiras relacionadas a outras vertentes do rock, mas no Metal me parece que os textos  são apenas descritivos e que todos acabam seguindo a mesma "linha". Quando há crítica, é algo avaliativo, uma tentativa de atribuir valor negativo ou positivo. Em outras palavras, diz-se que a banda é boa ou não por motivos x, y ou z. Parece até que existe uma fórmula "velada" de como uma resenha deve ser....

Já pensei bastante a respeito disso e tenho a sensação (que pode estar muito errada, uma vez que não encontrei fontes que falassem da origem das resenhas de álbuns no Metal/Rock) que isso tem a ver com as dificuldades financeiras e logísticas de adquirir material no passado. Acredito que a mídia do nosso meio se via com a obrigação de descrever para os fãs o que encontrariam nos discos para que soubessem se gostariam de adquirir o trabalho ou pedir para algum amigo que fizesse cópia em fita K7 (se você lembrou de você fazendo isso é véio também ahauahuhauaha). Se pensarmos nas tão tradicionais comparações - quem nunca leu uma resenha que dizia essa banda lembra muito banda X na fase Y? - minha "teoria" parece bem provável.

As publicações eram assim
De maneira geral, a mídia especializada amadureceu muito, mas sempre me questiono se o conteúdo dos textos não poderia ter tomado um outro rumo. Como disse acima, pensando no contexto em que as primeiras publicações surgiram, essa forma descritiva de se fazer resenha e das críticas com atribuição de valor faziam sentido, mas diante do que temos hoje, será que ainda fazem? Será que agora com essa facilidade absurda de ouvir qualquer banda de qualquer lugar do mundo, as resenhas não poderiam adquirir um caráter mais analítico/reflexivo?

Com a entrada de "capital" na jogada, a mídia percebeu o poder da resenha e seu papel para imprensa acabou ganhando novos significados, mas o conteúdo e a forma continuaram basicamente os mesmos.

E caminharam para isso!
Verdade seja dita, se uma grande revista ou grande site faz uma crítica dizendo que determinado álbum é ruim, há um enorme impacto em sua aceitação. Algumas pessoas nem se darão ao trabalho de conferir por si mesmas (especialmente se a banda em questão não for muito famosa) e outras escutarão tão influenciadas que a chance de gostar serão mínimas. Levando isso em consideração, será que textos mais reflexivos e menos avaliativos não seriam muito mais interessantes?

Não quero de maneira alguma dizer que fazer resenhas seguindo esse modelo tradicional está certo ou errado. Quero apenas propor uma reflexão sobre o assunto e quem sabe ir preparando o terreno para minhas futuras tentativas de "resenha alternativa".  Penso que o próximo passo seria tentar demonstrar isso na prática e tentar responder as perguntas que eu mesma me faço e que dividi com vocês aqui. Já tenho em mente uma banda para tentar uma abordagem alternativa, aguardem!

"Peço desculpas pela ENORME demora e agradeço aqueles que contribuíram discutindo o assunto comigo e que deixei curiosos pra ler o texto: Dario Viola amigo querido, companheiro de cafés e vocalista do Blasthrash, , Bruno Aranha historiador, fã de metal e amigo das antigas e Dimitri Brandi do Psychotic Eyes.
Agradeço Eliton Tomasi e Susi dos Santos do Som do Darma que gentilmente cederam capas da extinta Valhalla para ilustrar o post."