terça-feira, 27 de novembro de 2012

E não é que eu ainda sei escrever resenha de show? (MX + Arch Enemy)


Pensei que nem soubesse mais como escrever resenha de show, mas para atender ao pedido de minha amiga Nina Stillo descobri que ainda sei sim. Essa moça queria divulgar uma resenha a respeito do show do MX + Arch Enemy e pediu para que eu colaborasse com o texto. Pois bem, abaixo está o nosso texto a 4 mãos e as fotos são de outro companheiro Metal Friend, Rogerio Seiji Kubometal. 


Nina, obrigada pelo convite! Adorei!
Rogerio, como sempre registrando tudo e muito bem!








MX + Arch Enemy - 25/11/12 - Carioca Club - São Paulo/SP 
por Nina Stillo e Linda Mulero / fotos: Rogerio Seiji Kubometal

No último domingo (25/11) o Carioca Club tremeu. A banda MX fez seu primeiro show na capital paulista após a memorável apresentação que marcou seu retorno em Amparo/SP no Executer Fest. A garotada estava tímida enquanto o MX tocava a primeira música, mas se mostrou muito receptiva. Observamos com muita alegria que a garotada foi sendo contagiada pela empolgação dos fãs das antigas que não pararam de agitar um minuto e pela performance da banda, que subiu ao palco cheia de vontade de tocar. Executaram sons dos seus álbuns Headthrashers Live, Simoniacal, Mental Slavery, Again e Last File e fecharam o show com Angel of Death do Slayer. Depois de vermos nova e velha geração de headbangers curtindo o show com a mesma intensidade, tivemos a certeza de que há a possibilidade de resgatarmos excelentes bandas dos anos 80, sem saudosismo ou cheiro de naftalina. Sangue novo ao velho metal! 

Com o público devidamente aquecido pelo MX, Angela Gossow subiu ao palco com o Arch Enemy. Essa mulher tem a seu favor seu lindo sorriso e sua poderosa voz, mas sua performance demonstra que ela não depende somente da sorte. Um dos ápices do show foi quando ela ficou agitando a bandeira brasileira em um mastro pelo palco. O fato de ela ter ido buscar a bandeira no backstage, ao invés de ter recebido por algum fã que a jogou no palco, demonstra que Angela quer e sabe como cativar o público. 
Depois dessa noite literalmente agitada, saímos todos do Carioca Club entendendo melhor a “ascensão” do Arch Enemy depois da entrada de Angela Gossow e com a certeza de que o MX voltou com força total para alegria de seus fãs das antigas e que essa gurizada certamente será conquistada pelos, como eles mesmos dizem, “veinhos”. “MX is back!”

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Manifesto Guarani-Kaiowá

Diante dos recentes acontecimentos envolvendo os Guarani-Kaiowá do Mato Grosso do Sul, a Marina Takahashi teve a grande idéia de regravar Kaiowás do Sepultura
Tive a honra de ser convidada para escrever o manifesto que acompanha o vídeo.
Confiram, pensem, opinem e divulguem!





Música: Kaiowas - Sepultura

Violão: Attilio Negri
Violão: Marina Takahashi
Percussão: Pitchu Ferraz


Texto do Manifesto: Linda Mulero

Manifesto

Em outubro de 2012 a Justiça Federal de Navirai/MS tomou uma decisão desfavorável aos membros da comunidade Guarani-Kaiowá que ocupam um território as margens do rio Hovy. O grupo escreveu uma carta em resposta a essa decisão que teve uma repercussão polêmica. Eles solicitam ao Governo e Justiça Federal que ao invés de executar a suposta ordem de despejo, decrete morte coletiva e enterrem-nos onde estão.

A mídia está divulgando que ocorrerá um suicídio coletivo, no entanto, após leituras exaustivas da carta não é possível encontrar qualquer menção a suicídio. O que está dito é que não sairão do território e que acreditam que isso resultará em mortes. Ainda que a mídia não tivesse feito uma abordagem equivocada, a decisão dos Guarani-Kaiowá e seus argumentos seriam recebidos de forma controversa, uma vez que "O significado de territorialidade para as sociedades indígenas não é o mesmo que para as populações nacionais que as rodeiam." "Para as sociedades indígenas a terra é muito mais do que simples meio de subsistência. Ela representa o suporte da vida social e está diretamente ligada ao sistema de crenças e conhecimento. Não é apenas um recurso natural mas -- e tão importante quanto este -- um recurso sociocultural." (Ramos, Alcida Rita - Sociedades Indígenas)

Em um primeiro momento parecia não haver dúvida de que a decisão da Justiça Federal de Navirai/MS tratava-se de ordem de reintegração de posse, isto é o grupo Guarani-Kaiowá teria de desocupar a área. Após alguns dias, a Justiça do Mato Grosso do Sul alegou que a ordem é de manutenção de posse, portanto, apesar de o fazendeiro ter a posse legal da terra, o grupo não precisaria sair da área até que fosse provado a quem o território pertence efetivamente.

A situação desse grupo Guarani-Kaiowá nos parece uma representação da situação dos indígenas no Brasil: obscura, incerta e preocupante. Independente de o grupo Guarani-Kaiowá estar certo ou errado e da Justica Federal de Navaraí/MS ter tomado uma decisão justa ou injusta, não há como negar a importância desse episódio. Embora ainda não saibamos qual será o desfecho dessa questão, ela foi de suma importância, pois conseguiu propor uma reflexão -- ainda que superficial -- a respeito dos problemas enfrentados pelos índios do Brasil.

terça-feira, 16 de outubro de 2012

De onde vim - Literatura

A leitura e a escrita me interessam desde que fui alfabetizada. Pensando bem, acho que o universo dos livros, das estórias e etc me conquistou muito antes disso... Lembro-me de ganhar livros apenas com figuras (mas com narrativas) antes de aprender a ler e de ficar totalmente encantada. Foi quando ganhei esses livros que descobri que o mundo podia estar ao alcance dos meus olhos e das minhas mãos.



Infelizmente a escola em que estudei - assim como a maior parte das escolas públicas de nosso país - sempre negligenciou a literatura e eu só fui descobrir efetivamente essa coisa tão maravilhosa quando fui fazer cursinho aos 20 anos de idade! Antes disso eu ia lendo o que “caia” na minha mão, sem grandes reflexões ou noção de que havia coisa muito melhor por aí. Sempre que penso nisso me dói um pouco o coração, afinal foram tantos anos desperdiçados!

Apesar de todo esse contexto desfavorável e desmotivador, eu decidi estudar Letras e foi quando ingressei na universidade que a literatura “fincou raízes” na minha vida. Não posso esquecer de mencionar que esse processo foi árduo, afinal, enquanto a maior parte dos meus colegas de classe conheciam os grandes autores de trás para frente, eu conhecia apenas eles “de nome”.


Pensando sobre minha trajetória até a Literatura, vejo o quanto é irônico eu ter estudado na FFLCH/USP. O curso é muito mais voltado para Literatura do que para qualquer outra coisa e isso me lembrou de “O Lutador” do Carlos Drummond. O eu-lírico do poema fala do processo de construção poética, da dificuldade que ele encara diante das palavras. Penso que isso de certa forma pode representar a luta que eu travei todos os dias durante os 6 anos de faculdade (é isso mesmo! eu levei 6 anos para sair da faculdade! Qq hora eu falo sobre essa outra luta) com a Literatura.




O Lutador - Carlos Drummond de Andrade

Lutar com palavras
é a luta mais vã.
Entanto lutamos
mal rompe a manhã.
São muitas, eu pouco.
Algumas, tão fortes
como o javali.
Não me julgo louco.
Se o fosse, teria
poder de encantá-las.
Mas lúcido e frio,
apareço e tento
apanhar algumas
para meu sustento
num dia de vida.
Deixam-se enlaçar,
tontas à carícia
e súbito fogem
e não há ameaça
e nem 3 há sevícia
que as traga de novo
ao centro da praça.

Insisto, solerte.
Busco persuadi-las.
Ser-lhes-ei escravo
de rara humildade.
Guardarei sigilo
de nosso comércio.
Na voz, nenhum travo
de zanga ou desgosto.
Sem me ouvir deslizam,
perpassam levíssimas
e viram-me o rosto.
Lutar com palavras
parece sem fruto.
Não têm carne e sangue…
Entretanto, luto.

Palavra, palavra
(digo exasperado),
se me desafias,
aceito o combate.
Quisera possuir-te
neste descampado,
sem roteiro de unha
ou marca de dente
nessa pele clara.
Preferes o amor
de uma posse impura
e que venha o gozo
da maior tortura.

Luto corpo a corpo,
luto todo o tempo,
sem maior proveito
que o da caça ao vento.
Não encontro vestes,
não seguro formas,
é fluido inimigo
que me dobra os músculos
e ri-se das normas
da boa peleja.

Iludo-me às vezes,
pressinto que a entrega
se consumará.
Já vejo palavras
em coro submisso,
esta me ofertando
seu velho calor,
aquela sua glória
feita de mistério,
outra seu desdém,
outra seu ciúme,
e um sapiente amor
me ensina a fruir
de cada palavra
a essência captada,
o sutil queixume.
Mas ai! é o instante
de entreabrir os olhos:
entre beijo e boca,
tudo se evapora.

O ciclo do dia
ora se consuma
e o inútil duelo
jamais se resolve.
O teu rosto belo,
ó palavra, esplende
na curva da noite
que toda me envolve.
Tamanha paixão
e nenhum pecúlio.
Cerradas as portas,
a luta prossegue
nas ruas do sono.

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

De onde vim - Metal

Acredito que antes de qualquer coisa, devo mandar um aviso importantíssimo aos navegantes: Se você não gosta ou não tem paciência com longos textos, aborte imediatamente essa missão! Não tenho intenção de conter meus impulsos criativos, portanto os posts provavelmente serão extensos.

O processo de escrita para mim sempre começa muito antes de eu colocar minhas mãos sobre o papel ou em termos atuais, colocar as mãos sobre o teclado. Fiquei um tempo considerável pensando na melhor forma de abrir esse blog, hesitei muito em começar com uma minibiografia e acabei não conseguindo vencer meus velhos hábitos de professora. A necessidade de contextualizar para que o texto seja acessível a todos me venceu, portanto "senta que lá vem história"...

Eu poderia simplesmente dizer que ouço Heavy Metal há muitos anos e sou Bacharel em Letras Português/Inglês pela Universidade de São Paulo, mas será que isso realmente diz algo sobre mim ou será que diz o suficiente? Leiam o que escrevi abaixo e tirem suas próprias conclusões.

Já que eu não sou uma super narradora como Brás Cubas, vou contentar-me em começar essa história pelo começo. O Heavy Metal entrou na minha vida por causa da minha irmã Sumire. (vejam ao lado 1 foto nossa. pois é, apesar de ser caçula sou muito mais alta!) Ela já tinha me dito muitas vezes para pegar suas fitas emprestadas e eu até ouvia as fitas clandestinamente (sabe aquela coisa de briga entre irmãos? Eu fazia 1 super esforço para não dar meu braço a torcer), mas foi só quando fui ao primeiro show de metal é que o que era flerte virou amor e aí não teve mais volta.



Em 98, eu tinha então 14 anos, a Sumire conseguiu me convencer a ir ao Monsters of Rock com ela. Juro que não sou daqueles manés que “vivem” pelo e para o Metal, mas não consigo evitar de pensar que esse foi o dia que mudou o rumo da minha vida. Digo isso, pois alguns dos amigos e amigas mais queridos, todas as minhas paixões, as melhores viagens e as melhores “saídas” foram de alguma forma motivados pelo som. E claro que eu não poderia deixar de dizer que isso acabou me aproximando muito da minha irmã. Desse dia em diante tínhamos algo em comum, isso facilitou a nossa relação (que não era das mais fáceis). Virei seu “chaveirinho” gigante - não dá p chamar alguém de 1.80 só no diminutivo kkk- e ela passou a me carregar para todos os rolês com ela. Com isso eu ganhei a alcunha que me acompanhou por muitos anos e que de vez em quando alguém ainda desenterra: “irmã da Sumire”.

O som em si eu já sabia bem o que era afinal, a Sumire passava horas e horas ouvindo música em casa sem fones de ouvido e monopolizando a TV para assistir vídeos. A epifania veio por causa do ambiente, da vibração, de ver todas aquelas pessoas cantando e curtindo juntas e acho que principalmente pela cumplicidade que eu vi entre tantas pessoas que não se conheciam. Eu que me sentia um “ser estranho” no colégio, vi ali algo de que eu poderia me sentir parte, um horizonte brotou na minha frente. Penso que todos nós precisamos ter a sensação de pertencimento, especialmente quando somos adolescentes e o mundo parece tão hostil. Foi enquanto eu via todos aqueles braços para cima, ouvia todas aquelas palmas e gritos emocionados que percebi que eu nunca mais poderia viver longe daquilo tudo.

Sei que minha percepção da cena foi extremamente romântica, mas aos 14 anos quem é que não olha para o mundo com fantasia? Depois de 14 anos nessa vida de Metal, eu já vi um pouco de tudo e sei que esse definitivamente não é um mar de rosas, até pq isso não seria nada “true” ehehehehe. A questão é que eu optei por ter sempre em mente a sensação de falta de ar ao ouvir o coro dos fãs, o entusiasmo ao ver todas aquelas mãos em sincronia batendo palmas (apesar de que sempre tem alguns manezões sem noção de tempo atrapalhando tudo!), a mágica de ouvir um refrão cantado por milhares de pessoas e a solidariedade que presenciei tantas e tantas vezes entre pessoas que não tinham nada em comum além da preferência musical.

Já faz vários dias que estou pensando em como continuar esse post ou como terminá-lo... estou “empacada”! Depois de muito pensar, repensar e arrancar cabelos, a luz no fim do túnel surgiu! Bandeira, tão querido, como sempre me ensinando!




Lembrei-me de seu lindo poema “Poética” e aí percebi que não há motivo para seguir regras. Esse blog é um meio para que eu possa me expressar e não quero ter que obedecer a nada! Então fecho esse post sobre minha “estréia” no metal com o lindo Poética do Bandeira. Sim, eu sei que isso é no sense, mas e daí?




Poética


Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem-comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente protocolo e manifestações de apreço ao sr. direitor
Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário o cunho vernáculo de um vocábulo
Abaixo os puristas

Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis

Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítico
De todo lirismo que capitula ao que
quer que seja fora de si mesmo.

De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de co-senos secretário do amante exemplar com cem modelos de cartas e as diferentes maneiras de agradar às mulheres, etc.

Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbados
O lirismo difícil e pungente dos bêbados
O lirismo dos clowns de Shakespeare

- Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.