Acredito que antes de qualquer coisa, devo mandar um aviso importantíssimo aos navegantes:
Se você não gosta ou não tem paciência com longos textos, aborte imediatamente essa missão! Não tenho intenção de conter meus impulsos criativos, portanto os posts provavelmente serão extensos.
O processo de escrita para mim sempre começa muito antes de eu colocar minhas mãos sobre o papel ou em termos atuais, colocar as mãos sobre o teclado. Fiquei um tempo considerável pensando na melhor forma de abrir esse blog, hesitei muito em começar com uma minibiografia e acabei não conseguindo vencer meus velhos hábitos de professora. A necessidade de contextualizar para que o texto seja acessível a todos me venceu, portanto "senta que lá vem história"...
Eu poderia simplesmente dizer que ouço Heavy Metal há muitos anos e sou Bacharel em Letras Português/Inglês pela Universidade de São Paulo, mas será que isso realmente diz algo sobre mim ou será que diz o suficiente? Leiam o que escrevi abaixo e tirem suas próprias conclusões.
Já que eu não sou uma super narradora como Brás Cubas, vou contentar-me em começar essa história pelo começo. O Heavy Metal entrou na minha vida por causa da minha irmã Sumire. (vejam ao lado 1 foto nossa. pois é, apesar de ser caçula sou muito mais alta!) Ela já tinha me dito muitas vezes para pegar suas fitas emprestadas e eu até ouvia as fitas clandestinamente (sabe aquela coisa de briga entre irmãos? Eu fazia 1 super esforço para não dar meu braço a torcer), mas foi só quando fui ao primeiro show de metal é que o que era flerte virou amor e aí não teve mais volta.

Em 98, eu tinha então 14 anos, a Sumire conseguiu me convencer a ir ao Monsters of Rock com ela. Juro que não sou daqueles manés que “vivem” pelo e para o Metal, mas não consigo evitar de pensar que esse foi o dia que mudou o rumo da minha vida. Digo isso, pois alguns dos amigos e amigas mais queridos, todas as minhas paixões, as melhores viagens e as melhores “saídas” foram de alguma forma motivados pelo som. E claro que eu não poderia deixar de dizer que isso acabou me aproximando muito da minha irmã. Desse dia em diante tínhamos algo em comum, isso facilitou a nossa relação (que não era das mais fáceis). Virei seu “chaveirinho” gigante - não dá p chamar alguém de 1.80 só no diminutivo kkk- e ela passou a me carregar para todos os rolês com ela. Com isso eu ganhei a alcunha que me acompanhou por muitos anos e que de vez em quando alguém ainda desenterra: “irmã da Sumire”.
O som em si eu já sabia bem o que era afinal, a Sumire passava horas e horas ouvindo música em casa sem fones de ouvido e monopolizando a TV para assistir vídeos. A epifania veio por causa do ambiente, da vibração, de ver todas aquelas pessoas cantando e curtindo juntas e acho que principalmente pela cumplicidade que eu vi entre tantas pessoas que não se conheciam. Eu que me sentia um “ser estranho” no colégio, vi ali algo de que eu poderia me sentir parte, um horizonte brotou na minha frente. Penso que todos nós precisamos ter a sensação de pertencimento, especialmente quando somos adolescentes e o mundo parece tão hostil. Foi enquanto eu via todos aqueles braços para cima, ouvia todas aquelas palmas e gritos emocionados que percebi que eu nunca mais poderia viver longe daquilo tudo.
Sei que minha percepção da cena foi extremamente romântica, mas aos 14 anos quem é que não olha para o mundo com fantasia? Depois de 14 anos nessa vida de Metal, eu já vi um pouco de tudo e sei que esse definitivamente não é um mar de rosas, até pq isso não seria nada “true” ehehehehe. A questão é que eu optei por ter sempre em mente a sensação de falta de ar ao ouvir o coro dos fãs, o entusiasmo ao ver todas aquelas mãos em sincronia batendo palmas (apesar de que sempre tem alguns manezões sem noção de tempo atrapalhando tudo!), a mágica de ouvir um refrão cantado por milhares de pessoas e a solidariedade que presenciei tantas e tantas vezes entre pessoas que não tinham nada em comum além da preferência musical.
Já faz vários dias que estou pensando em como continuar esse post ou como terminá-lo... estou “empacada”! Depois de muito pensar, repensar e arrancar cabelos, a luz no fim do túnel surgiu! Bandeira, tão querido, como sempre me ensinando!
Lembrei-me de seu lindo poema “Poética” e aí percebi que não há motivo para seguir regras. Esse blog é um meio para que eu possa me expressar e não quero ter que obedecer a nada! Então fecho esse post sobre minha “estréia” no metal com o lindo Poética do Bandeira. Sim, eu sei que isso é no sense, mas e daí?
Poética
Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem-comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente protocolo e manifestações de apreço ao sr. direitor
Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário o cunho vernáculo de um vocábulo
Abaixo os puristas
Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis
Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítico
De todo lirismo que capitula ao que
quer que seja fora de si mesmo.
De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de co-senos secretário do amante exemplar com cem modelos de cartas e as diferentes maneiras de agradar às mulheres, etc.
Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbados
O lirismo difícil e pungente dos bêbados
O lirismo dos clowns de Shakespeare
- Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.