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| eu, Martin Walkyier e minha irmã no Roça n Roll 2013 |
Lembro do Frank Zappa falando numa entrevista que quando teve que começar a acatar algumas exigências das gravadoras sua música ficou ruim. Ele disse que música para ser boa, você tem que colocar o que você sente e não o que alguém disse para você ou o que os outros vão gostar. Quando penso no Skyclad, também me lembro do Theodor Adorno em Palestra sobre Lírica e Sociedade:
"Não que aquilo que o poema lírico exprime tenha de ser imediatamente aquilo que todos vivenciam. Sua universalidade não é uma volonté de tous, não é a da mera comunicação daquilo que os outros simplesmente não são capazes de comunicar. Ao contrário, o mergulho no individuado eleva o poema lírico ao universal por tornar manifesto algo de não distorcido, de não captado, de ainda não subsumido(....) A composição lírica tem esperança de extrair, da mais irrestrita individuação o universal."
É, eu sei que esse troço é complicado de entender. Lembro que li esse texto umas muitas vezes e só entendi melhor quando tive aula sobre ele. Mas, o lance é que em uma interpretação tosca e mano (como só eu sei fazer kkkk) o tio Adorno tá dizendo algo como "se você quiser falar de questões universais, você vai acabar não falando e não falando delas, você fala". Certo, certo, sei que isso ainda parece confuso e é mesmo. Mas, eu tenho que aproveitar para alguma coisa o que aprendi na faculdade! ahauhaua Afinal, trabalhando com TI, eu nunca vou usar o Adorno.
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| Machadão - aparição relâmpago nesse post |
Zoeira! Li um texto muito bacana do Roger Bastide que acho que pode me ajudar a explicar melhor o que o Adorno disse e o que eu to querendo dizer com essa citação sem fim. Em "Machado de Assis, paisagista" Bastide defende que havia sim referências à natureza brasileira na obra do autor..Ele disse que Machado "incorpora a paisagem brasileira “à filigrana da narrativa” tornando-a “elemento funcional da composição literária”. Um bom exemplo seriam os tais "olhos de ressaca" de Capitu.
Martin Walkyer usa vocabulário complexo, alguns termos arcaicos, faz muitos "jogos"com as palavras e aborda temas políticos, fatos históricos e problemas sociais atuais. Quando comecei a ouvir Skyclad eu devia ter uns 15 anos e ainda estava começando a estudar inglês, portanto, não conseguia entender as letras deles. Além disso, eu ainda não tinha tanta bagagem histórica para sacar as referências. Alguns anos depois de muito estudar inglês consegui começar a entender e aí minha admiração pela banda cresceu. Com o cursinho e a faculdade e etc, eu só fui gostando mais e mais da banda. Aliás, quase sempre que escuto alguma música realmente prestando atenção, descubro algo novo.
Acho que para quem não conhece a banda ou sempre achou "alegre demais", vai sacar o que to querendo dizer se parar para ler Spinning Jenny.
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| Martin Walkyier |
Spinning Jenny é uma máquina de fiar que foi inventada no século 18. Ela simplesmente revolucionou a maneira de produção de artigos têxteis! A letra é em primeira pessoa e o eu-lírico dessa letra é um tecelão que está assustado e com medo. Ele fala sobre como o modo de vida vai mudar e faz belíssimas metáforas sobre as longas jornadas de trabalhos nas fábricas.
Traduzi dois versos que gosto muito e que dão uma excelente idéia de como as letras são complexas.
Her sweetmeats are the souls of men - "Seus doces são as almas dos homens - ela vai comer até explodir"
A siren song summons all men to their doom. - "A canção da sirene convoca todos os homens para a destruição"
No primeiro verso o uso do vocábulo "sweetmeats" demonstra uma coerência com o eu-lírico escolhido por Martin. Afinal, se a pessoa que é a voz do poema está no século 16, não faz sentido algum usar uma gíria do século 21 por exemplo. Pode parecer um detalhe idiota, mas a escolha dessa palavra demonstra uma preocupação com a verossimilhança.
"Que diabos é isso?" você que não é de Letras deve estar pensando, certo? Pois bem, eu fui colocando links que explicam as coisas no texto, mas isso é algo que vale a pena esclarecer no próprio texto. Não pretendo fazer uma aula sobre o assunto, até porque eu nem tenho cacife para tanto. A grosso modo, verossimilhança é o que torna um texto coerente e acreditável. Se a presença dela faz a gente "aceitar" uma narrativa, a falta dela faz justamente o oposto, a gente lê (ou vê uma cena no filme) e pensa "Até parece!". Imaginem que víssemos uma novela que se passa no século 15 no Brasil e víssemos pessoas andando de calça jeans, aí estaria rolando um caso sério de falta da nossa nova amiga verossimilhança. Ao passo que, se essa novela fosse a respeito de um jovem que viaja no tempo, a verossimilhança estaria batendo cartão no rolê.
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| Sorry Chaplin, not that modern :P |
Muita gente que conheço me dizia que não ouvia Skyclad porque era "alegre demais". Sei que com o passar dos anos o violino foi cada vez ganhando mais destaque nas músicas e que o peso no som fui "diminuindo". Mas, sério mesmo que dá para dizer que a banda é alegre demais depois de ler letras como "Inequality Street"? Como???? Essa letra fala das injustiças sociais, de como alguns não tem o que comer, enquanto outros têm sobrando. Além disso, há um questionamento claro da igualdade pregada pela nossa sociedade, da mentira em que todos somos levados a acreditar. Segue um trecho que dá uma "visão geral" da pegada da letra.
Dois homens comuns fazem suas refeições regulares
mas o destino espera em sua mesa.
Um é servido mingau enquanto os outros mastiga comida de cachorro
(mas ambos são alimentados com colheres cheias de mentiras, mentiras desde o berço).
Roberto Muggiati em Rock - O grito e o mito diz: "O rock’n’roll, afinal, surgiu na América como um movimento da contracultura, visto que suas primeiras manifestações eram contrárias aos valores até então veiculados". Tendo em mente que a essência do rock é ir contra a ordem e ao que está estabelecido, não poderíamos interpretar o aumento do uso de violinos e a perda de peso no instrumental do Skyclad como uma atitude muito coerente? Esse movimento se propôs a questionar o que está dado e abalar as estruturas e foi exatamente isso que o Skyclad fez ao ir transformando sua sonoridade. Trouxe elementos para o Heavy Metal que não era usados e mostrou que é possível sim criar músicas maravilhosas, mesmo que sem tanto peso.
Me questiono muitas vezes se essa dificuldade de "aceitação" / preconceito com o Skyclad não se deve ao fato de Martin Walkyier ter sido anteriormente vocalista da banda SENSACIONAL de thrash Sabbat. Talvez as pessoas tenham ficado frustradas, pois achavam que ele continuaria seguindo na mesma linha. Outros dias, fico refletindo se o preconceito com a banda é coisa de brasileiro. Todos os vídeos que vi deles tocando no Wacken, o povo tava se matando no show.....
Pode ser um pouco de viagem minha, mas sempre penso que o fato de todas as pessoas que tocaram violino no Skyclad serem mulheres parece muita coincidência! Será que na Inglaterra violino é considerado um instrumento afeminado e nenhum cara toca? ehehehe Brincadeiras a parte, acho que isso também tem um caráter importante. Nenhuma das violinistas foi usada enquanto mulher para divulgar a banda. Nunca colocaram-nas em posições de destaque em fotos/vídeos, nem usando roupas sexy ou qualquer coisa desse tipo. Pretendo um dia escrever um post a respeito do uso da imagem da mulher para atrair público e conquistar espaço no nosso meio, acho que simplesmente criticar isso, sem tentar pensar a respeito uma idiotice enorme. Mas, penso que um elemento feminino tocando exatamente o instrumento que causa tanta polêmica, mas que também deu a identidade para a banda e que acabou criando um novo segmento dentro do metal algo muito significativo.
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| Tietando o Martin em 2007 |
Bem, talvez alguém esteja se questionando porque não mencionei nada da banda pós saída do Martin. A verdade é que eu não gostei de como a banda ficou e o que me fez me apaixonar foram as letras e ninguém escreve letras como esse cara! Como disse o Eric Piccelli "Martin Walkyier é o maior poeta do metal".
O rock é muito mais do que um tipo de música: ele se tornou uma maneira de ser, uma ótica da realidade, uma forma de comportamento. O rock ´é´ e ´se define´ pelo seu público. Que, por não ser uniforme, por variar individual e coletivamente, exige do rock a mesma polimorfia (...)Mais polimorfo ainda porque seu mercado básico, o jovem, é dominado pelo sentimento da busca que dificulta o alcance ao porto da definição ( e da estagnação...) - Paulo Chacon





